Nosso Drama
By Rodrigo on May 12, 2009 in Conto, Rodrigo Alonso, drama | 2 Comments
Afinal, algumas pessoas nos rodeavam.
Eu estava sentado na cadeira, você nos meus braços. As pessoas nos olhavam de maneira desconfortável.
Era tudo um jogo muito bem calculado. Eu fazia de que queria ficar sozinho, mas estava preso demais no meu próprio mundo para me comunicar. Eu ficava ali, sentado, te segurando forte, olhando para você. A idéia era me tornar uma espécie de instalação de museu de arte moderna. “O homem triste de verdade”.
As pessoas que ficavam também faziam parte dessa instalação, desse teatro, mas eu era o único que sabia que se tratava de uma encenação da parte de todos. E não foi sempre assim?
Não.
Na verdade não.
Costumava ser “nós”.
Nós nos divertíamos em ser bons cenários e boas situações. Brigávamos em público e em privado (era algo como a versão de nosso relacionamento de um monólogo), dizíamos coisas apenas para criar dramas.
E as pessoas rodeavam. Elas tinham opiniões e posicionamentos. E você fugia para a casa de uma amiga e ela fazia o papel da pessoa que dizia para você me largar. E eu ia beber com um amigo e ele fazia o papel do cara que me convencia a te trair.
E a peça continuava. O modo como fingíamos nos amar e fingíamos que não viveríamos sem o outro. Atuar o amor sempre foi uma grande emoção.
Não que não nos amássemos sinceramente ou o quão sinceramente conseguíamos amar, é só que o importante não era a sinceridade. O importante não era o que podíamos dizer de verdadeiro. O importante era o que podíamos dizer de interessante.
Eu me pergunto se no fim a piada era que nós acabamos por nos tornar pessoas bem chatas. Mas talvez a intenção não fosse ser interessante no sentido em que pessoas inteligentes ou engraçadas são interessantes. Talvez a intenção não fosse ser interessante no sentido em que um bom filme é interessante, mas no sentido em que uma novela é interessante. As pessoas não eram particularmente ligadas a nós. Não realmente se importavam com nosso destino, mas era uma constante para nossos amigos saberem que tínhamos algum problema, algum drama.
E eles nos visitavam e nós brigávamos por uma coisa boba e eles acompanhavam as dores até a reconciliação e não era nada de épico, mas era uma boa diversão. Há de se haver lugar no universo para as medíocres boas diversões e como nós gostávamos de ocupar esse lugar.
Eu realmente acreditava que havia um lugar no universo para nós. Para nossos probleminhas. Para nosso vai-e-volta e nossas inúmeras histórias de conquista e reconquista, de traição e arrependimento, de experiências novas e retorno ao tradicional. Nós não atuávamos só uma peça relação. Nós atuávamos a história do mundo.
Em nós estava condensado o que há de eterno e imutável na essência de algo muito importante. A nossa arte capturava a totalidade da estabilidade do caos. Nossa constante era ser incerteza. E alguém talvez fizesse uma aposta de quanto tempo iríamos durar, mas eu sempre soube que duraria pra sempre.
Sempre soube.
E eu estava errado.
Como dói para nós artistas vivermos em um mundo que não criamos. Participar de acasos genuinamente não previstos. Sofrer dores não programadas.
Fico sentado aqui com você nos meus braços e de repente me atinge a possibilidade de perder o controle. De não saber o que fazer em seguida. De estar triste não em drama, mas em fato. De ser um personagem cujo papel não escrevi.
De repente me atinge a possibilidade de que o Destino roubou minha caneta e que tudo isso é só um meio dele me avisar que as férias acabaram. Que agora é ele quem escreve essa história.
Mas as histórias do Destino terão a nossa beleza? A nossa sutileza? As nossas piadas internas e nossa capacidade de cativar e interagir com nosso público?
Desde que uma partícula explodiu em algum ponto do espaço, o Destino escreve suas histórias de átomos que se chocam e protozoários que sobrevivem. Seria razoável esperar que incontáveis anos escrevendo dariam a ele uma habilidade de fazer algo melhor. Ao invés disso, veja só, ele retira de nós, que somos tão talentosos, o controle criativo dessa emocionante novela sobre um casal que não se suporta, mas que se ama e o que ele faz? Ele cria um giro irritantemente típico daqueles escritores que acabaram de perceber que a audiência caiu.
Agora você está nos meus braços, dentro de uma caixa, provavelmente compartilhando as cinzas de sabe-se lá quantos outros que passaram pelo mesmo crematório.
É o seu funeral e você ficaria orgulhosa em como estou transformando isso em um show sobre minha tristeza.
Tudo bem, não é um funeral tecnicamente, mas eu pensei nessa grande cena de mim sentado em uma cadeira te segurando enquanto as pessoas tentam me consolar e vão desistindo aos poucos. Então eu liguei pra todo mundo e disse que não conseguia ficar sozinho; que eu tinha bebida e um pen drive com uns filmes antigos do Jackie Chan; que só queria companhia.
Eles acharam a bebida - mas como você me amaldiçoaria na sua não-existência se eu tivesse de fato exibido qualquer filme do Jackie Chan.
Não querida, mil vezes não, eu quis te dar um último palco, um último drama. Se o maldito Destino achou que seria uma boa ideia para melhorar a audiência que o seu último episódio ocorresse em um maldito crematório com sua clichê e chorosa família me entregando suas cinzas em um doentio sinal de respeito, ele está enganado.
É isso, meu bem. É você nos meus braços com todos nossos amigos ao redor esperando uma reação. Esperando um último drama. Eles sabem que terão! Talvez eu te jogue na privada e dê descarga. Talvez eu te jogue em um lanche como se fosse pimenta-do-reino. Mas algo vai acontecer. Eles sabem. Eles esperam. Como eu gostaria que você ainda existisse para que esse prazer não fosse tão solitário.
Como eu amei dividir esse palco com você.
Como eu odeio essa situação. Como eu odeio e desprezo estar próximo a esse abismo.
A platéia espera nosso último drama e após dá-lo, o que eu vou fazer? Oh céus, oh céus, estou perdendo o controle. A caneta está sendo tirada de mim de novo. O que eu vou fazer? Você não era minha vida. Você morreu e eu ainda estou vivo. Mas você era minha co-autora. E sem você não há mais criação. O que eu vou fazer depois de hoje? Como eu vou acordar amanhã? Eu acho que vou ter uma overdose de realidade e morrer junto com você.
Eu não quero morrer, mas eu me sinto já morto. Como posso dizer que existo quando o amanhã não existe? Como posso continuar vivendo se todo o futuro está bloqueado? Não é só que eu não saiba o que eu vou fazer amanhã. Minha vida sem você não é um mistério a ser resolvido ou descoberto quando o dia nascer. Minha vida sem você é outra vida e eu estou tão pronto pra nascer de novo quanto estou para morrer definitivamente.
Eu não quero fazer isso. Eu não quero nosso último show. Eu quero recuperar o controle. Eu quero recuperar agora. Eu quero que isso seja mentira. Eu quero que nossas mentiras juntas voltem a ser realidade. Eu não aguento mais tanta verdade. Céus céus céus, estou perdendo o controle. Isso deixou de ser um bom drama. Eu tenho que parar e recuperar agora. Eu tenho que ter você de volta porque sem você é certo que o sol nasce amanhã. Toda essa verdade vai ser minha morte.
E acontece muito antes que eu pensava. Acontece antes dos convidados irem embora. Acontece antes de acordar.
Você morreu e enquanto eu percebo que quero morrer junto, eu percebo toda a irritante realidade disso. Eu sou só uma pessoa estúpida com a caixa das cinzas da minha ex-namorada nas mãos. E eu achei que isso seria… eu sei lá o que eu achei. Agora só parece estúpido.
Quantas coisas parecem estúpidas agora.
Você morreu e uma parte de mim quer que eu lide com isso. Mas o que eu vou fazer se nós não podemos mais escrever nossas histórias? Como que funciona isso de viver sinceramente? Como que funciona isso de não ter alguém com quem trocar diálogos? Alguém espera que a partir de hoje eu tenha conversas ao invés de diálogos? Quantas coisas parecem estúpidas agora.
Eu me levanto e agradeço a todos por virem, peço desculpas e digo que gostaria de ficar sozinho.
É tudo verdade.
Coloco a caixa em cima de uma mesa com fotos nossas e sei que eventualmente vou ter que colocar as fotos em uma gaveta e pensar em qualquer meio de se livrar dessas cinzas. Não quero jogá-las em nenhuma parte, não quero ficar encarando-as. Eu penso nisso depois.
Esse é o momento em que eu visualizo um futuro sem você.
Vai ser uma vida.
E vai ser triste.
E eu vou superar.
E eu vou achar alguém.
E é assim que o Destino escreve suas histórias entediantes.